Introdução
Este é talvez o maior problema que todos quanto gostam dos céus têm
para enfrentar hoje em dia. Talvez devêssemos concentrar nele todos os
nossos esforços, antes que deixe de haver noite. Dentro das nossas cidades
já muito pouco conseguimos ver da verdadeira beleza do céu. As estrelas são
poucas, e as nebulosas, galáxias, enxames... são nenhuns. A Via Láctea... nem
se sabe que ela está lá.
O céu nocturno está cada vez mais iluminado. Há cada vez mais luzes dirigidas
para o céu, que nos impedem de admirar uma das coisas mais belas da Natureza,
e também uma das mais acessíveis.
A maioria das pessoas não tem sequer consciência deste problema. Sempre que
se fala em poluição vêm-nos à mente a poluição do ar e das águas. Mas toda
esta luz também é poluição, é uma alteração drástica e destrutiva que
provocamos à Natureza.
Se tu que lês já tens um carinho especial pelo Céu, talvez queiras ler o
seguinte conto de fadas.
Temos direito a um céu puro!
Má iluminação, boa iluminação
O principal problema é a má iluminação pública, que dirige a sua luz
para o céu. A iluminação pública tem naturalmente que continuar a existir.
Mas precisa de ser bem feita, com candeeiros que dirijam a sua luz para baixo,
onde ela é precisa, e não para os lados ou para cima.
Adicionalmente, também a iluminação de monumentos e estabelecimentos comerciais
precisa de ser feita de uma forma mais correcta, pois ela tende a ser feita com
grandes holofotes a dirigir a sua luz para cima. Lembro-me sempre do Observatório
Astronómico de Lisboa (OAL), em que em tempos a Câmara Municipal de Lisboa
instalou uns enormes holofotes no chão em volta do edifício. Mas que grande
contradição...
Toda esta luz nocturna trás apenas desvantagens:
- Deixamos de poder admirar o céu. As gerações mais novas não conhecem
a beleza do puro céu nocturno.
- A luz que é enviada para cima é energia, e a energia paga-se. E somos
todos nós que a pagamos. Bom, quanto a vocês não sei, mas não me
agrada a ideia de andar a pagar para iluminar o céu...
- Em muitos locais a luz altera destructivamente o habitat de alguns
seres vivos. Por exemplo, alguns tipos de aves podem ficar a voar
indefinidamente em torno de luzes mal projectadas até cairem mortas
de cansaço. Existem ainda outras espécies afectadas, como as
tartarugas adultas e recém nascidas, que se dirigem à costa atraídas
pelas luzes, em vez de se dirigirem ao mar.
- Algumas luzes (por terem sido mal desenhadas) têm o efeito adverso de
encandearem os condutores.
Alguém conhece alguma vantagem de enviarmos luz para o céu? Por mais luz que
enviemos para cima não me parece que os "homenzinhos verdes" a consigam
ver, portanto isto não serve como desculpa . De qualquer forma, se sabem de
alguma vantagem, por favor escrevam-me sobre ela!
Grande parte da iluminação pública não foi concebida de uma forma correcta.
Uma boa parte da luz escapa para o céu, em alguns casos até mais de metade.
Nas fotografias em baixo podemos ver alguns exemplos de má iluminação.
Estes "maus candeeiros" deixam a luz escapar para cima ou para os lados.
Repare-se no candeeiro "bola" (ou "nódoa", como gosto de lhe chamar); mais
de metade da luz é enviada para cima, onde não faz falta absolutamente nenhuma.
Por outro lado, existem candeeiros amigos do ambiente. Nestes exemplos
abaixo, a lâmpada encontra-se completamente "escondida" dentro da protecção
metálica do candeeiro, dirigindo a luz apenas para baixo, em cone.
Outro factor que contribui para uma maior poluição do céu é o tipo de lâmpadas
usadas nos candeeiros. Cada tipo de lâmpada emite luz numa determinada
faixa da luz visivel. Por exemplo, uma lâmpada que emita luz branca está a
emitir luz numa grande faixa do espectro. Esta lâmpada polui mais do que uma
que emita por exemplo uma luz amarela, pois esta última emite luz numa pequena
faixa do espectro.
Luz branca (tipicamente lâmpada de mercúrio)
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Luz amarela (tipicamente lâmpada de sódio)
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É importante que a luz emitida ocupe
uma faixa do espectro o mais reduzida possível, mesmo quando é emitida correctamente,
para baixo. A sensibilidade que alguns
animais possuem às cores não lhes permite "ver" a luz de alguns tipos de
lâmpada que emitem luz numa pequena faixa do espectro. Por outro lado, existem
hoje em dia filtros especiais que permitem aos astrónomos "eliminar" esta luz
de reduzido espectro das suas observações.
Curiosamente, o tipo de lâmpada comercial que emite numa faixa mais reduzida do
espectro é também o tipo de lâmpada mais eficiente (lâmpada de sódio a baixa
pressão), e com uma boa vantagem sobre a "segunda classificada". Isto quer dizer
que, além de uma menor poluição do espectro, com menos electricidade obtemos mais
luz, e portanto poupamos dinheiro.
É importante reter que não se pretende acabar com a iluminação nocturna,
precisamos dela. O que se pretende é que ela seja bem planeada e executada
de forma a não interferir negativamente na Natureza e nas nossas vidas.
Podemos fazer alguma coisa?
Bom, já que perguntam , claro que podem fazer. Todos podemos, todos
devemos. Há várias possibilidades. Vou deixar aqui 3, da mais simples à mais
radical (não, apedrejar candeeiros não é uma possibilidade !).
- Podemos sensibilizar as pessoas. Assim elas talvez pensem melhor antes de
colocarem luzes "criminosas" nas paredes exteriores das suas próprias casas.
Da próxima vez que a autarquia se lembre de colocar umas luzes no chão a
apontar para cima a iluminar um monumento durante toda a noite, talvez elas
se oponham ao desperdício de dinheiro que foge para o céu. Quando muitas
pessoas estiverem sensibilizadas para o problema, talvez então as autarquias
se sintam pressionadas a efectuar um melhor planeamento da iluminação
pública.
- Podemos juntar-nos a uma associação de astronomia e participar nas acções
contra a poluição luminosa. À parte a divulgação/sensibilização, não sei se
existe algum tipo de acção mais concreta por parte destas associações...
- Podemos tentar melhorar a área onde vivemos. Podem ser feitas pesquisas
simples para identificar a iluminação (candeeiros, holofotes, etc) mais
problemática, procurar alternativas viáveis e apresentar às autarquias locais
propostas de alterações. Pode até ser um trabalho interessante como projecto
escolar para alunos a partir do ciclo preparatório.
O importante é não ficar parado!
Se ainda tiverem alguma dúvida de que é importante termos um céu natural, da
próxima vez que houver um black-out na vossa zona vão até à janela
e olhem bem para o céu por uns minutos, e deslumbrem-se com a sua beleza
inigualável.
Mais informações, ligações (links) e bibliografia
Podem obter informações mais detalhadas nos sites que se seguem.
Este conjunto de ligações também consitui parte da bibliografia que consultei
para a concepção deste texto.
Notícias
Dois terços da humanidade não pode observar céu estrelados
In Notícias - Ecosfera - Publico.pt
Poluição Luminosa (Nuno Crato)
Artigo escrito para um jornal muito conhecido (versão em formato PDF).
Sites Em Português
Tributo à Astronomia e o Combate à Poluição Luminosa (Ulisses Martins)
Página pequena e simples, mas muito rica de conteúdo.
Poluição Luminosa (Nuno Coimbra)
Página com um bom nível de detalhe sobre a problemática.
Poluição Luminosa (Carlos Diniz)
Trabalho de um senhor brasileiro que conseguiu efectuar algumas mudanças
na iluminação de uma localidade.
O DIREITO DE VER ESTRELAS - A poluição luminosa sob a égide jurídica,
urbanística e ambiental (Nadia Palacio dos Santos)
Texto de uma estudante brasileira de direito, mostrando que os habituais argumentos
ambientais, culturais e sociais, encontram aliados jurídicos na Lei (brasileira).
Sites Noutras Línguas
The night sky in the World
A Terra à noite, vista do espaço. Por aqui se pode ver bem toda a luz
que é enviada (desperdiçada) para o céu.
Light Pollution
Pedagógico e bem estruturado.
International Dark-Sky Association
Site de uma associação internacional que luta "por um céu escuro".
Contém muita informação, incluindo um guia/proposta de lei sobre
iluminação.
Sky Law
Nas ilhas Canárias existe uma lei que regula a iluminação dos céus.
Neste site esta lei encontra-se apresentada de uma forma bastante
simples e pedagógica. Este não é um caso único. Há outros pontos do
Globo onde existem leis que regulam a iluminação no ambiente, como
por exemplo na República Checa.
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